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Entrevista

CONHEÇA MELHOR
MANUEL SCHWEIZER, AUTOR

Algumas palavras sobre si e sobre o seu percurso?

Sou, antes de mais nada, músico, pianista de formação clássica – mas muito atraído pela improvisação e pelas músicas menos académicas –, discípulo de Éric Heidsieck no Conservatoire National Supérieur de Musique et de Danse de Lyon. Desde 2008, ensino piano no Conservatoire à Rayonnement Régional de Lyon. Anteriormente, ensinei no Conservatório de Chambéry durante 21 anos.

Sempre tive a tentação de escrever, sem nunca dar realmente o passo, à exceção de alguns poemas, letras de canções, editoriais ou pequenos artigos, mas nada de muito significativo. Aproveitei o confinamento de 2020 para realizar um projeto que tinha em mente há muito tempo: um tratado de interpretação e de técnica pianística, que reúne os conhecimentos adquiridos ao longo de toda a minha vida de pianista e professor, ao longo de mais de quarenta anos. Uma vez concluído este projeto, por conselho de um amigo, continuei a escrever, contando algumas das minhas digressões de concertos no estrangeiro, começando pelas mais insólitas. E, uma coisa levando à outra, acabei por relatar cerca de vinte viagens.

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Fale-nos do seu livro Déconcertants concerts.

O meu amigo tinha-me ouvido contar algumas das minhas viagens durante serões algo regados, e incentivou-me a passá-las para o papel, provavelmente seduzido pelo lado algo pitoresco das minhas aventuras. Comecei pela minha viagem ao Congo, que contém, efetivamente, elementos quase picarescos.

Mas, à medida que escrevia, senti necessidade de evocar as pessoas que tinha conhecido, com algumas das quais estabeleci relações muito profundas. E, naturalmente, de descrever os países que visitei, pois não queria de modo algum que o leitor pensasse que me limitava a ir lá fazer o meu trabalho sem me interessar pelas culturas que descubro em cada viagem.

O meu livro tornou-se, portanto – sem que eu o tivesse planeado –, uma mistura de relatos de experiências profissionais e artísticas, um diário de viajante e uma soma de reflexões pessoais, por vezes até íntimas.

Um dos meus amigos ficou surpreendido por eu revelar pensamentos tão privados, daqueles que confiamos ao nosso psicanalista. Devo admitir que não me apercebi verdadeiramente disso enquanto escrevia; talvez estivesse ingenuamente inconsciente do alcance das minhas palavras.

Quis, no entanto, manter-me sincero, anunciando desde logo que todos os meus relatos são autênticos. Tentei introduzir um pouco de humor; cada um poderá apreciá-lo ou não.

Tentei também dar ritmo e musicalidade ao meu texto, às minhas frases, fortemente influenciado pela minha atividade de músico. Também aqui, cabe ao leitor julgar.

Sem que também o tivesse previsto inicialmente, fui acrescentando progressivamente fotografias das minhas viagens, não para comprovar a veracidade das minhas palavras, mas porque me pareceu que a imagem completava vantajosamente o texto e que o leitor poderia ter algum interesse em vê-las.

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Quais são as suas leituras, as suas influências?

A minha principal influência é, incontestavelmente, Romain Gary, a tal ponto que alguns poderão legitimamente acusar-me de plágio. Na minha juventude, li praticamente toda a sua obra, com uma ternura muito especial pelas obras de Émile Ajar.

Sou particularmente sensível à sua relação com a humanidade, ao seu humor marcado pelo desespero e às construções frásicas insólitas e de duplo sentido de que tanto gosta e que me tocam profundamente.

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Quais são os seus novos projetos em curso?

Comecei a pensar num romance que se passaria no meio musical, um universo que conheço bem. Mas ainda estou apenas no início.

Tenho projetos de concertos e imagino concertos-leitura em torno de Déconcertants concerts.

 

Escrever: porquê?

Escrever é muito mais repousante, menos stressante do que tocar piano. Se não estou satisfeito com aquilo que produzi, posso sempre voltar ao que já escrevi, melhorá-lo, aperfeiçoá-lo, até ficar completamente satisfeito.

Ao passo que, quando dou um concerto, não há possibilidade de repetir uma passagem que correu mal.

Além disso, o universo musical é ferozmente competitivo, temos de provar constantemente o nosso suposto valor. O universo literário também o é, certamente, mas isso não me afeta: escrevo sozinho em casa, tranquilamente, sem pensar em competir com os outros.

Escreve-se inevitavelmente para ser lido. É, sem dúvida, uma oportunidade para partilhar elementos ou reflexões pessoais que não ousaria expressar em voz alta, protegido pela distância que o livro cria entre o autor e o leitor.

Escrever é o momento em que posso expressar-me sem qualquer contradição, e que me leva a desenvolver o meu pensamento até ao fim, sem receio de ser interrompido ou contestado.

É também por isso que me permito frequentes digressões, correndo o risco de me afastar do assunto, considerando que sou o único responsável pela direção que pretendo dar ao meu discurso.

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Tenho 18 anos, que conselho me quer dar para a vida?

A minha profissão de professor de piano consiste principalmente em dar conselhos a jovens de 18 anos. A minha condição de pai levou-me certamente a aconselhar três dos meus filhos que já passaram por essa fase – alguns há muito tempo –, enquanto dois outros ainda se perguntam febrilmente o que poderei aconselhar-lhes dentro de alguns anos.

Sou quase um profissional dos conselhos aos jovens que atingem a maioridade.

O meu primeiro conselho seria inscrever-se nos cadernos eleitorais, para dar valor a este slogan gasto mas, ainda assim, mais verdadeiro do que nunca: «A liberdade só se gasta se não a usarmos !»

O meu segundo e último conselho seria escolher a orientação da sua vida em função dos seus desejos mais profundos, mais do que de considerações de razão.

É, no entanto, muito possível que seja um mau conselho, que o conduza à miséria e às dificuldades. Mas talvez o encaminhe com sucesso para um caminho que não teria ousado seguir.

 

Um facto histórico importante ou que o tenha marcado?

Nasci 14 anos depois da Segunda Guerra Mundial. Quando era criança, aquilo parecia-me a Antiguidade. Mas, devido aos relatos quase obsessivos que os meus pais e os meus avós faziam constantemente sobre a guerra, penso que é o acontecimento histórico que mais me marcou, embora de forma indireta.

Estava em Paris, na Place de la Bastille, na noite de 10 de maio de 1981, radiante. Estava a chover, o que deveria ter-me feito desconfiar.

Acompanhei com paixão a revolução romena e a queda do comunismo em 1989.

E o julgamento de Putin em Nuremberga, em 2032.

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Um país, um povo?

Os meus filhos são franco-portugueses ou franco-quirguizes. Eu sou franco-mundo.

 

Teria gostado de viver noutra época que não esta? Se sim, qual?

Teria gostado de viver numa época em que houvesse menos gente nas praias, em que os apartamentos nas cidades custassem uma ninharia e em que fosse possível acampar debaixo da Pont du Gard sem ter de pagar um bilhete de estacionamento.

Mas receio que, nessa época, as habitações fossem mal aquecidas e, como tenho medo do inverno, penso que vou ficar em 2024.

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Uma paixão?

Fiz da minha paixão a minha profissão: músico.

Quando era criança, era louco por música. Não pela música que aprendia no Conservatório. O blues, o jazz, o rock, a canção. Progressivamente, a música clássica alcançou-me. Mas as outras músicas marcaram-me para toda a vida.

De qualquer forma, é a música clássica que conheço melhor.

Adoro voar. Teria gostado de ser piloto de avião, mas disseram-me que os estudos eram demasiado difíceis e pensei que não conseguiria. Pensando bem, pilotar um avião não deve ser mais difícil do que tocar piano.

Fiz 18 voos de parapente e ainda me pergunto por que razão não continuei. Que maravilha que foi!

Também adoro viajar apaixonadamente, mas isso conto no meu livro.

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Um livro para uma ilha deserta, qual?

Pergunta clássica, resposta clássica.

Qual é a função do livro que levamos para uma ilha deserta? Ajudar Robinson a desenrascar-se, passar o tempo ou proclamar perante a humanidade qual é o melhor livro de todas as épocas?

No primeiro caso, Construire une cabane dans les arbres, de Philip Schmidt e Joel Schnell, parece-me particularmente adequado.

No segundo, Gros-câlin, de Émile Ajar, ou Clair de femme, de Romain Gary, poderiam ser uma boa escolha, desde que a estadia não se prolongasse demasiado.

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Um «desabafo»?

Já que me dão a palavra, vou tentar desenvolver uma teoria que surge de forma cada vez mais frequente, embora ainda confusamente, no meu cérebro doente.

Indignamo-nos regularmente, na imprensa, nas rádios, nos meios de comunicação social ou nas conversas de café, com numerosas disfunções da nossa sociedade. Aqui, uma mulher morreu no hospital, porque não foi atendida suficientemente depressa; ali, os efetivos policiais são manifestamente insuficientes. Noutro lado, as turmas estão sobrelotadas, o material é insuficiente, os subsídios são irrisórios, as filas na câmara ou no centro de emprego são insuportáveis, as estradas estão em mau estado, os elevadores estão avariados, os pianos estão desafinados.

Algumas pessoas têm de recorrer aos bancos alimentares para obter comida.

Vivemos numa sociedade em que se considera – com razão – que o Estado deveria ser garante da nossa saúde, da nossa segurança, da nossa educação e do nosso conforto. Valéry Giscard d’Estaing chegou mesmo a criar um Ministério da Qualidade de Vida.

Nos países pobres, em África, por exemplo, já não se espera que os bombeiros ou o Samu cheguem num quarto de hora à menor chamada, que as turmas sejam limitadas a 25 alunos ou que o parto decorra sem dor.

Não temos dinheiro! Os responsáveis têm de arbitrar escolhas financeiras dilacerantes. Se vestimos o Pedro, temos de despir o Paulo. As finanças públicas são objetivamente insuficientes para assegurar todas as garantias que o cidadão tem o direito de esperar, as quais, na sua maioria, estão inscritas na lei.

E é aqui que eu queria chegar.

Não é verdade que falte dinheiro. O mundo está cheio de dinheiro. Está simplesmente mal distribuído. Alguns têm infinitamente mais do que o necessário, enquanto a maioria dos outros não tem o suficiente. Se imaginássemos uma distribuição diferente da riqueza, seria certamente possível responder às necessidades de toda a população.

Tenho plena consciência de que as minhas palavras se parecem com puro marxismo-leninismo, o qual não conseguiu demonstrar a sua validade em quase um século de socialismo. Mas estou convencido de que é necessária uma reorganização da sociedade e de que a distribuição da riqueza no planeta é uma questão crucial.

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